Pensentires em Prosas, Versos e Sonhares.

Voar junto e dar ASAS aos Sonhos, amplia possibilidades, de viver-se intensamente.

Textos



Ela esperou por mim para partir

A tarde morria... Saí do trabalho, apressada, cansada de falar. Professor não usa só giz. Peguei o ônibus. Tinha hora para chegar ao hospital. Meu irmão não ia me esperar. Pensamentos tantos. Minha mãe esperava por mim. Eu iria passar a noite com ela que estava Internada há uma semana, com metástase. Lembrei da luta que travamos até que aceitasse ser internada, dos exames, das idas e vindas aos especialistas, das expressões de dores durante as injeções, dos gemidos abafados, dos choros escondidos. Até que parou de aceitar a alimentação e eu tive que convencê-la a se internar. Senti o nó na garganta, o gosto das lágrimas, e ela me disse: _ Estou lutando por você. Vou porque está pedindo. Abracei-a. E disse: _ Mãe, a senhora precisa se alimentar. Fiquei com ela a primeira noite. Alimentação enteral. Medicação intravenosa. Adormeceu e eu também. Meu irmão chegou pela manhã. Despedi-me. Abraçando e dizendo: _ Semana que vem volto. Ela sorriu, ou melhor, esboçou um sorriso. Beijou-me. Mantive-me informada por telefone e por meus irmãos. Nós nos revezamos. Hoje, eu volto. Sei que não reage bem ao tratamento. Mas, sempre a incentivei. Adentrei a ala, senti a mudança, o ar condicionado. Caminhei rápido. Queria estar com ela. Diante da porta, respirei fundo. Precisava demonstrar otimismo e ânimo. Abri a porta. Silêncio. Luz tênue. Olhei para a cama que ela deveria estar. E senti um aperto no peito. Havia uma pessoa com aparelhos. Estranhei. Será que entrei no quarto errado? Sai. Confirmei. Voltei. Acendi a luz e estremeci. Ela estava irreconhecível. Em uma semana, o câncer a transformara. Lágrimas molhavam-me a face. Aproximei. Beijei-lhe os cabelos. Rosto sem cor, por trás da Máscara. Monitorada por aparelhos. Era uma sombra da mulher que me gerou. Apaguei a luz. Silêncio e o som da respiração com aparelho. Segurando-lhe uma das mãos, fiz uma prece em voz alta. Emocionada, disse: _ Mãe, se continua lutando por minha causa, eu peço, não lute mais, vá em paz. Seu calvário terminou.Vi uma lágrima. Beijei-lhe. E ela se foi... O aparelho sinalizou que algo estava fora do contexto. Corri e chamei por ajuda. Médicos e enfermeiras vieram e me pediram para sair. Eu me sentia aliviada, apesar de triste. Ela esperou por mim para partir.



Juli Lima
Enviado por Juli Lima em 23/02/2008
Alterado em 21/11/2010


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